É uma música, uma dança, um ritual, uma filosofia, um estilo de vida?
Eu diria assim...
Não é possível delimitar exatamente o que são, de onde vêm e para onde irão as rodas de carimbó.
O que sabemos é que essa manifestação, considerada a expressão mais representativa da cultura popular tradicional no Pará, região leste da Amazônia brasileira, surgiu há mais de 200 anos, a partir do contato entre os povos indígenas locais e os africanos trazidos pela Coroa Portuguesa para o trabalho forçado nas lavouras e fazendas do período colonial.
Mas que povos eram esses? Especialmente na Amazônia costeira, habitavam em grande número, nessa época, os Tupinambás. É importante ressaltar, no entanto, que a ocupação humana na Amazônia é milenar: diversos povos habitaram a região, migraram, estabeleceram conexões, desenvolveram tecnologias, cultura e espiritualidade, transformaram a paisagem e cultivaram plantas que hoje fazem parte da alimentação cotidiana, como o açaí, a mandioca e a castanha. Povos indígenas de várias etnias resistem até hoje no Pará, tanto no interior quanto nas cidades, protegendo seus territórios da exploração capitalista e das consequentes mudanças climáticas.
Quanto aos povos africanos levados para a região, interessava aos traficantes promover a mistura de indivíduos, de modo a dificultar a comunicação e a resistência dos escravizados. Ainda assim, sabe-se da chegada de negros oriundos da Guiné, do Congo, de Angola, da Costa do Benim e da Costa da Mina. Estes últimos deixaram como herança o culto conhecido no Pará e no Maranhão como Tambor de Mina, uma das influências fundamentais para a cultura popular amazônica brasileira.
As cantorias, no contexto do Brasil colonial, aconteciam em raros momentos de lazer, como forma de resistência para preservar conhecimentos e rituais, ou ainda como músicas de trabalho entoadas durante as tarefas no campo.
Sobre a palavra carimbó, pode-se deduzir que se originou como uma variação do nome do instrumento curimbó. O termo revela interessante semelhança com curimba — o corpo musical das religiões de matriz africana —, além de se aproximar das palavras curi (pau oco) e ‘mbó (furado, escavado), do tupi, podendo ser traduzido como “pau que produz som”. Essa denominação descreve tanto um tambor indígena quanto o ato de tirar som batendo em um tronco ou árvore oca para comunicar-se à distância dentro da floresta.
Naturalmente, uma cultura tão rica como o carimbó — que reúne musicalidade própria, vestimenta, dança, instrumentos como o curimbó, a flauta, o reco-reco e a maraca, além de brincadeiras, mística e poesia — não nasceu em um único dia. Foi sendo moldada ao longo de muitos anos e, nesse processo, agregou elementos de outras culturas, como movimentos que podem ter vindo de danças ibéricas e a introdução do banjo artesanal, instrumento presente no country norte-americano, mas que certamente também tem origem africana.
Entretanto, essa mistura de culturas não ocorreu apenas de forma amistosa. Além da escravidão, o carimbó carrega em sua história episódios de proibição, apagamento e apropriação — marcas que permanecem até hoje.
Apesar disso, mestres e mestras do carimbó, músicos, dançarinos, folcloristas e ativistas culturais lutaram para que essa manifestação conquistasse o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, reconhecimento concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2014.
O resultado dessa fusão de encantaria e resistência é uma cultura viva e pulsante, representada por personalidades como Mestre Verequete, Mestre Lucindo, Mestre Chico Braga, Mestre Cupijó, Dona Onete, Nazaré Pereira, Pinduca, Mestre Pelé, Mestre Lourival Igarapé, Mestre Chico Malta, entre tantos outros mestres e grupos. Só no Pará já foram identificados cerca de 300 conjuntos de carimbó, que se espalharam também para outros estados e países.
Com o YGARA, esperamos plantar sementes no coração de crianças, jovens e adultos, para que se interessem, aprendam, pratiquem e respeitem o carimbó, nutrindo a admiração pelos povos originários e pela cultura popular tradicional da Amazônia.